Talvez um dos maiores desejos do ser humano contemporâneo não seja compreender a própria vida.
Seja encontrar alguém que confirme sua versão dela.
Não buscamos apenas escuta.
Buscamos absolvição.
Queremos contar a história, escolher os personagens, distribuir as culpas e, ao final, ouvir que fizemos tudo o que podíamos.
Que fomos apenas vítimas.
Que nossas reações foram inevitáveis.
Que nossos erros nasceram sempre do comportamento de outra pessoa.
E, quando a terapia se limita a acolher essa narrativa sem jamais examiná-la, ela pode deixar de ser um espaço de transformação e se tornar apenas um lugar sofisticado onde aprendemos a justificar a nós mesmos.
Há uma diferença profunda entre acolher uma dor e concordar com tudo o que alguém diz.
Acolher é reconhecer:
“Isso que você sente é real.”
Concordar cegamente é concluir:
“Portanto, tudo o que você pensa sobre o que aconteceu também precisa ser verdade.”
Não precisa.
Sentimentos são reais.
Interpretações podem estar erradas.
A dor merece cuidado.
O comportamento ainda pode precisar de correção.
Uma pessoa pode ter sofrido e, ainda assim, ter ferido.
Pode ter sido negligenciada e também ter negligenciado.
Pode ter sido incompreendida e, ao mesmo tempo, nunca ter se esforçado verdadeiramente para compreender ninguém.
A maturidade começa quando conseguimos sustentar essas duas verdades sem precisar destruir uma delas.
A pergunta que muitas vezes não é feita
Imagine alguém que chega à terapia dizendo:
“Meu companheiro não me entende.”
O terapeuta pode perguntar como essa pessoa se sente, o que espera da relação e o que gostaria de receber.
Tudo isso é necessário.
Mas existe outra pergunta igualmente importante:
*“E como você procura compreender o seu companheiro?”*
Ela diz:
“Ele não me oferece carinho.”
Mas oferece carinho?
Ela diz:
“Ele não me escuta.”
Mas escuta quando ele fala?
Ela afirma:
“Ele não reconhece o que eu faço.”
Mas reconhece o esforço dele?
Ela deseja reciprocidade.
Mas o que entrega?
Essas perguntas não servem para culpabilizar.
Servem para devolver à pessoa aquilo que toda relação exige: participação.
Uma relação não é apenas o lugar onde recebemos ou deixamos de receber.
É também o lugar onde produzimos experiências na vida do outro.
A pergunta terapêutica não deveria ser somente:
“Por que fizeram isso com você?”
Também deveria ser:
*“O que você tem feito com aquilo que fizeram com você?”*
Porque a dor explica muitas coisas.
Mas não transforma automaticamente todas as nossas ações em atitudes justas.
A validação que cura e a validação que paralisa
Hoje, a palavra “validação” aparece em quase todas as conversas sobre saúde emocional.
E ela possui grande valor.
Ser validado significa ter o sentimento reconhecido sem ser ridicularizado, diminuído ou imediatamente combatido.
Em relações humanas, a validação pode reduzir a tensão e tornar possível uma conversa que antes estava dominada pela defesa. A literatura sobre casais costuma associar o esforço de reconhecer e compreender a experiência do outro durante conflitos a menos afeto negativo e a melhor qualidade da relação.
Mas validar não significa declarar que toda conclusão do paciente é correta.
Não significa validar crueldade.
Não significa validar abandono de responsabilidade.
Não significa validar uma vida inteira construída sobre a ideia de que apenas os outros precisam mudar.
Uma boa terapia poderia dizer:
“Eu compreendo por que você se sentiu assim.”
E, logo depois:
“Agora precisamos examinar o que você fez com esse sentimento.”
Esse segundo movimento é indispensável.
Sem ele, a terapia pode produzir uma pessoa cada vez mais articulada para explicar suas feridas, mas ainda incapaz de interromper os comportamentos pelos quais fere os outros.
Ela aprende o vocabulário.
Trauma.
Limites.
Gatilhos.
Autocuidado.
Narcisismo.
Relação tóxica.
Mas utiliza cada palavra como uma nova forma de escapar da pergunta mais difícil:
*“Onde está a minha responsabilidade nisso?”*
O terapeuta não deveria ser advogado de uma versão
Em uma terapia individual, o profissional conhece apenas aquilo que o paciente relata.
Ele não estava na discussão.
Não ouviu a outra pessoa.
Não testemunhou o que aconteceu antes ou depois.
Recebe uma narrativa formada por memória, emoção, interpretação, defesa e desejo de ser compreendido.
Isso não significa que o paciente esteja mentindo.
Significa apenas que nenhuma narrativa humana é neutra.
Todos contamos a própria história a partir do lugar em que estamos.
Por isso, o terapeuta não deveria assumir automaticamente o papel de juiz.
Também não deveria se transformar no advogado do paciente contra todos os demais personagens de sua vida.
Seu papel é ajudar a pessoa a investigar a própria experiência.
Perguntar.
Testar hipóteses.
Apontar discrepâncias.
Observar repetições.
Perceber quando o mesmo conflito aparece com diferentes pessoas.
Notar quando todos os ex-companheiros, amigos, filhos, pais e colegas são descritos como problemáticos, enquanto o paciente permanece sempre como a única presença inteiramente inocente.
Talvez todos realmente tenham falhado com aquela pessoa.
Mas uma terapia séria precisa, pelo menos, considerar outra possibilidade:
*“Existe alguma coisa que você repete e ainda não consegue enxergar?”*
O desconforto também faz parte do tratamento
Existe hoje uma ideia perigosa de que qualquer desconforto provocado na terapia representa falta de acolhimento.
Mas refletir pode doer.
Reconhecer que ferimos alguém pode doer.
Admitir que desperdiçamos oportunidades pode doer.
Perceber que não fomos apenas vítimas pode doer.
Sentir arrependimento não é necessariamente adoecer.
Às vezes, é o início da saúde moral.
Isso não significa que o terapeuta deva humilhar, acusar ou destruir a autoestima de alguém.
Confrontações duras, controladoras ou mal colocadas podem prejudicar a aliança terapêutica. De modo geral, intervenções de apoio e de exploração tendem a ser melhor recebidas do que afirmações controladoras ou desafiadoras, cujo efeito depende muito do contexto e do vínculo já construído.
Mas confronto terapêutico não precisa significar agressão.
Pode significar simplesmente apontar uma discrepância:
“Você diz desejar proximidade, mas se afasta sempre que alguém lhe pede mudança.”
“Você afirma querer respeito, mas descreve comportamentos em que também desrespeita.”
“Você sofre quando não é ouvido, mas interrompe todas as pessoas que discordam de você.”
“Você diz que todos o abandonam, mas costuma expulsá-los antes que possam escolher permanecer.”
Momentos assim podem gerar rupturas passageiras na relação terapêutica. Ainda assim, quando são acompanhados de uma tentativa cuidadosa de compreender e reparar essa própria ruptura, costumam contribuir para melhores resultados.
Portanto, o problema não é fazer perguntas difíceis.
É fazê-las sem vínculo, sem método, sem sensibilidade e sem finalidade clínica.
Terapia não deveria ser punição
Há também um risco no outro extremo.
Um terapeuta não existe para obrigar alguém a “sentir-se uma pessoa má”.
Vergonha excessiva raramente produz maturidade.
Muitas vezes, produz defesa.
Quando alguém se sente moralmente esmagado, tende a negar, atacar, fugir ou construir justificativas ainda mais elaboradas.
A função da terapia não é produzir humilhação.
É produzir consciência.
Culpa saudável diz:
“Eu fiz algo errado e preciso reparar.”
Vergonha destrutiva diz:
“Eu sou inteiramente errado e não há nada que possa fazer.”
A primeira pode gerar mudança.
A segunda pode gerar paralisia ou agressividade.
O terapeuta competente não deveria absolver o paciente de toda responsabilidade.
Mas também não deveria reduzi-lo ao pior ato que cometeu.
Ele deveria criar condições para que a pessoa consiga olhar para o próprio erro sem precisar fugir dele.
Dizer:
“Sim, isso foi seu.”
“Sim, alguém foi ferido.”
“Sim, você precisa reparar.”
“E sim, você ainda pode escolher agir diferente.”
O adolescente que precisa ser compreendido — e responsabilizado
O mesmo ocorre com filhos e adolescentes.
Um jovem desrespeita os pais, agride verbalmente, quebra acordos e recusa qualquer limite.
É importante investigar o ambiente familiar.
Existe violência?
Existe negligência?
Os pais são incoerentes?
Há sofrimento emocional, transtorno mental, dificuldade escolar ou exclusão social?
Tudo isso precisa ser considerado.
Mas investigar as causas não significa eliminar a responsabilidade.
Um adolescente pode ter sido ferido e ainda assim precisar aprender que não possui o direito de ferir.
Pode ter motivos para estar com raiva.
Não possui automaticamente o direito de humilhar.
Pode discordar dos pais.
Ainda precisa aprender a expressar desacordo sem destruir as pessoas ao redor.
A terapia com crianças e adolescentes depende de uma relação colaborativa e segura, e a qualidade desse vínculo costuma estar associada aos resultados do tratamento.
Mas segurança não significa ausência de limites.
Uma terapia que apenas diz ao jovem que toda reação é consequência dos erros dos pais pode roubar dele algo essencial: a descoberta de que também possui poder para mudar a própria história.
Responsabilidade não é condenação.
É autonomia.
Enquanto tudo for culpa dos outros, a própria vida continuará nas mãos deles.
Nas relações de casal, duas narrativas entram na sala
Na terapia de casal, o desafio se torna ainda mais evidente.
Duas pessoas chegam carregando anos de experiências diferentes.
Uma apresenta tudo o que fez.
A outra apresenta tudo o que sofreu.
Uma fala das tentativas.
A outra fala das ausências.
Ambas podem estar dizendo a verdade.
Mas nenhuma está dizendo a verdade inteira.
O trabalho terapêutico não deveria decidir rapidamente quem é o bom e quem é o mau.
Deveria revelar a dança que ambos construíram.
Quem procura e quem se afasta.
Quem cobra e quem silencia.
Quem oferece e quem passou a considerar a entrega uma obrigação.
Quem reclama de falta de carinho, mas rejeita toda aproximação.
Quem diz não ser valorizado, mas nunca expressa gratidão.
Quem deseja mudança no outro, mas considera qualquer pedido de mudança dirigido a si como um ataque.
A terapia de casal apresenta resultados positivos para muitos casais e pode melhorar a satisfação da relação, mas isso exige que ambos consigam examinar padrões, emoções e responsabilidades, não apenas defender suas versões.
Uma pergunta simples poderia transformar muitas sessões:
*“Você está aqui apenas para que o terapeuta explique ao seu parceiro o quanto ele errou, ou também está disposto a descobrir o que precisa mudar em você?”*
Sem essa disposição, não há terapia de casal.
Há apenas um tribunal em que cada pessoa tenta contratar o terapeuta como testemunha.
A aliança terapêutica não é cumplicidade
Uma boa terapia depende de confiança.
A qualidade da aliança entre terapeuta e paciente é um dos fatores mais consistentemente associados aos resultados do tratamento.
Mas aliança não significa cumplicidade.
O paciente não precisa sentir que o terapeuta concorda com tudo.
Precisa sentir que o terapeuta não o abandonará quando a verdade se tornar desconfortável.
A verdadeira segurança terapêutica não consiste em nunca ser confrontado.
Consiste em saber que a confrontação não será usada para humilhar.
Que o profissional continuará ao lado do paciente enquanto ele examina aquilo que preferiria negar.
Talvez essa seja uma das formas mais elevadas de cuidado:
não colaborar com a mentira que protege alguém hoje e destrói sua vida amanhã.
A pergunta que devolve a liberdade
Existem pessoas que passaram anos perguntando:
“Por que fizeram isso comigo?”
Talvez essa pergunta seja necessária no início.
Mas não pode ser a única para sempre.
Em algum momento, outras precisam surgir:
“Por que eu aceitei durante tanto tempo?”
“O que me impede de estabelecer limites?”
“Que sinais eu escolhi ignorar?”
“Em quais momentos eu também feri?”
“Por que continuo repetindo o mesmo padrão?”
“O que ainda ganho permanecendo nesse lugar?”
“O que preciso reparar?”
“O que preciso abandonar?”
“O que preciso aprender?”
Essas perguntas doem porque retiram a pessoa do lugar de espectadora da própria vida.
Mas também devolvem poder.
A terapia não pode alterar o que os outros fizeram.
Pode ajudar alguém a decidir o que fará a partir disso.
E talvez essa seja a diferença entre validação e tratamento.
A validação diz:
“Eu reconheço a sua dor.”
O tratamento acrescenta:
*“Agora vamos descobrir o que precisa mudar para que essa dor não continue comandando você.”*
A psicologia que precisamos
Não precisamos de uma psicologia cruel.
Não precisamos de profissionais que culpem vítimas, ignorem traumas ou transformem sofrimento em falha moral.
Mas também não precisamos de uma psicologia que trate todo desconforto como violência, toda frustração como trauma e toda responsabilidade como culpabilização.
Precisamos de uma psicologia capaz de unir compaixão e coragem.
Que acolha sem infantilizar.
Que compreenda sem absolver automaticamente.
Que investigue sem acusar.
Que confronte sem humilhar.
Que ajude a pessoa a reconhecer não apenas aquilo que sofreu, mas também aquilo que produz na vida dos outros.
O terapeuta não deve dizer ao paciente o que ele deseja ouvir.
Também não deve impor uma verdade pessoal.
Deve ajudá-lo a olhar para a realidade com menos defesa.
Talvez a pergunta mais importante de uma terapia não seja:
“Quem está errado?”
Mas:
*“O que você ainda não consegue enxergar sobre si mesmo?”*
Porque uma terapia que apenas consola pode aliviar uma tarde.
Uma terapia que ensina alguém a perceber, assumir e transformar seus próprios padrões pode alterar uma vida.
O paciente não precisa sair de todas as sessões sentindo-se bem.
Precisa sair, ao longo do processo, enxergando melhor.
Às vezes com alívio.
Às vezes com esperança.
Às vezes com a frustração dolorosa de reconhecer que poderia ter agido diferente.
Mas também com a possibilidade de escolher diferente da próxima vez.
A verdade terapêutica não deveria esmagar.
Deveria libertar.
E nenhuma liberdade verdadeira nasce apenas da certeza de que os outros erraram.
Ela nasce no dia em que alguém consegue finalmente dizer:
*“Eu também errei. Agora, o que farei com isso?”*
Uma observação necessária: este texto fala de psicoterapia — o trabalho clínico conduzido por psicólogos e outros profissionais habilitados — e não de psiquiatria, que é a especialidade médica dedicada ao diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais. A crítica aqui não é à profissão, mas a uma forma superficial de praticá-la. São reflexões pessoais e não substituem acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda continua sendo o gesto mais corajoso.
Referências e apoios de leitura
Este texto nasce de observação e experiência pessoal — mas suas ideias centrais dialogam com pesquisa consolidada. Para quem quiser ir além:
- Waller, G. (2009). Evidence-based treatment and therapist drift. Behaviour Research and Therapy, 47(2), 119–127. — Documenta a “deriva do terapeuta”: a tendência de clínicos abandonarem as intervenções de mudança, mais difíceis, em favor de conversas de apoio — movidos pela própria ansiedade e desconforto. É o fenômeno que este texto descreve por experiência.
- Flückiger, C., Del Re, A. C., Wampold, B. E., & Horvath, A. O. (2018). The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis. Psychotherapy, 55(4), 316–340. — Síntese de 295 estudos, com mais de 30 mil pacientes: a qualidade da aliança entre terapeuta e paciente é um dos fatores mais consistentemente ligados ao resultado do tratamento.
- Eubanks, C. F., Muran, J. C., & Safran, J. D. (2018). Alliance rupture repair: A meta-analysis. Psychotherapy, 55(4), 508–519. — Tensões na relação terapêutica, quando reparadas, associam-se a resultados melhores do que relações sem atrito algum: o desconforto atravessado com vínculo fortalece o processo.
- Linehan, M. M. (1997). Validation and psychotherapy. Em A. C. Bohart & L. S. Greenberg (Orgs.), Empathy reconsidered: New directions in psychotherapy. American Psychological Association. — A dialética entre aceitação e mudança: validar a emoção sem abrir mão de responsabilizar o comportamento.
- Tangney, J. P., & Dearing, R. L. (2002). Shame and Guilt. Guilford Press. — A distinção entre culpa (“eu fiz algo errado”, que mobiliza reparação) e vergonha (“eu sou errado”, que paralisa), usada neste texto.

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